BOLSONARO EM DAVOS

O Presidente Jair Bolsonaro fez, em 22/01/18, um discurso no Fórum Econômico Mundial, em Davos. Segundo a imprensa internacional, a ausência de importantes líderes mundiais no evento, daria ao brasileiro enorme destaque, portanto, sua fala era aguardada com expectativas. Do tempo disponível para sua exposição – cerca de 45 minutos – ocupou quase seis minutos. Pouco, muito pouco, para um político que quer se firmar com liderança nacional e boa projeção internacional. 

Após rápido comentário meu, na rede social, alguns colegas asseveraram que o discurso foi no estilo dele: rápido, curto e dando o recado que o mercado gostaria de ouvir. Tendo a crer que as avaliações – internas e externas – sobre a fala presidencial são mais negativas do que positivas, seja para o mercado ou para os analistas políticos. Em minha perspectiva, o discurso foi demasiado pobre (e isso não pode ser confundido com ser direto e objetivo). Suas ideias expostas continuam tratando de sua campanha eleitoral, temática que já deveria, há muito, ter sido superada, mas que ele tem dificuldade para abandonar. Além disso, houve, no discurso, inverdades, como, por exemplo, o fato de ter gastado menos de 1 milhão de dólares e apenas 8 segundos de televisão e “sendo injustamente atacado a todo tempo”. É fato que gastou pouco e teve tempo nanico na televisão, contudo, não foi o tempo todo atacado injustamente. Foram, obviamente, cometidos ataques mentirosos em relação a ele, mas ele e os seus também desferiram ataques do mesmo teor aos adversários. Nesta eleição de 2018, quase ninguém foi inocente quanto aos adversários que foram transformados em inimigos.  

Na sequência, afirmou que assumiu “o Brasil em uma profunda crise ética, moral e econômica”. Isso é verdade, todavia, o Brasil que Temer deixou para Bolsonaro é bem melhor do que aquele que Temer herdou de Dilma. E, ainda, no caso de crise moral e ética, o seu governo deverá, cotidianamente, mostrar que será diferente, como gostava de afirmar, de tudo que está aí. Até o momento, não se consubstanciou num numa página virada dos costumes políticos e sim num novo capítulo de história bem conhecida acerca das relações entre os “donos do poder” e a sociedade brasileira. Depois, afirmou que “pela primeira vez montou uma equipe de ministros qualificados. Honrando compromissos de campanha, não aceitando ingerências político-partidárias que, no passado, apenas geraram ineficiência do Estado e corrupção”. Esse trecho é descabido e assaz distante da realidade. Alguns de seus ministros são, sim, qualificados, mas alguns são despreparados, deslumbrados e confusos, para dizer o mínimo. Outro ponto: Itamar Franco montou uma equipe com Fernando Henrique Cardoso a frente do Ministério da Fazenda que foi capaz de controlar a hiperinflação e dar estabilidade à economia do país, só para rememorar. Há que se tomar cuidado para que o presidente e os bolsonaristas não retomem a arrogância lulista do “nunca antes na história desse país”. Ao citar o Ministro Ernesto Araújo, das Relações Exteriores, aduziu que o mesmo implementará uma “política na qual o viés ideológico deixará de existir”. O presidente e seus asseclas ou desconhecem ou, intencionalmente, acreditam que ideológica é apenas a esquerda e não eles próprios. Não existe política sem ideologia, sem valores e visão de mundo. Ao criticar a diplomacia da era petista – e ela deve, mesmo, ser criticada – as propostas do novo governo parecem, apenas, inverter o sinal, continuando ideológico, ao, à guisa de exemplo,  se alinhar automaticamente a  Trump e, também,  de querer mudar a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém. 

Os pontos positivos de seu discurso – e há – foram suas afirmações de que pretende abrir nossa economia, defender os direitos humanos, a democracia, educar a juventude, bem como reduzir a pobreza e a miséria. Aqui, ao tratar de abrir nossa economia, visto que o Brasil é um país de baixa liberdade econômica (artigos sobre o tema podem ser encontrados no site do Centro  Mackenzie de Liberdade Econômica), Bolsonaro toca a música preferida do mercado. Se, realmente, conseguir tais feitos, merecerá destaque e elogios. Por enquanto, são só boas intenções. 

No geral, como dito inicialmente, foi um discurso, a meu ver, raso em conteúdo e forma. A oportunidade de explorar mais profundamente temas afeitos à economia internacional foi perdida naquele momento. Ao que parece a atuação de Paulo Guedes, mais nos bastidores tem agradado, especialmente ao lidar com a questão da reforma da previdência. Se há decepção com o discurso presidencial, há boas expectativas em relação ao Ministro Guedes. Tomara que, em breve, Bolsonaro entenda a importância da retórica e da necessidade de liderar efetivamente no bojo do governo e das forças políticas institucionais e dispersas na sociedade. Ser objetivo é ótimo, mas aprofundar os temas que foram trazidos à baila no discurso é sinal de conhecimento, preparo intelectual e maturidade. E, por fim, entender que o espaço no Fórum Econômico Mundial é repleto de simbologia e que seria melhor – simbolicamente –  ter o discurso bem aceito do que elogios pelo fato de se alimentar no bandejão de um supermercado.  

Por Rodrigo Augusto Prando
 Professor e Pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie, do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas. Graduado, Bacharel e Licenciado, em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp

Presidente Jair Bolsonaro discursa durante Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça – 22/01/2019 Arnd Wiegmann/Reuters

Link da Foto: https://veja.abril.com.br/economia/discurso-de-bolsonaro-em-davos-nao-traz-nada-de-novo-para-o-mercado/