UMA MORAL SUPERIOR E MENOSCABO AOS MANIFESTANTES

Hoje, 15/05/19, à tarde, fiz uma foto da tela de minha televisão. Ali, dividida, havia, de um lado, a fala do Ministro da Educação, Abraham Weintraub; e, do outro, as manifestações que tomavam as ruas de várias cidades do país. Compartilhei no Instagram afirmando que quando a tela se dividia daquela forma, era momento de preocupação, especialmente, rememorando as manifestações de 2013 e os protestos pedindo o impeachment de Dilma, mais recentemente. Minha preocupação é com os rumos de um governo precocemente desgastado e a difícil retomada da economia, a criação de empregos e a discussão aprofundada dos problemas da educação brasileira.

Como é sabido, na maioria das vezes, o que é postado é comentado. Um de meus seguidores fez o seguinte comentário:

“”Idiotas de vermelho não preocupam ninguém Rodrigo. UNE, não passa de curral esquerdista. Nenhuma moral aos que estão na rua!!!”.                   

Claro que na condição de professor de Sociologia e Política, de pesquisador e de cidadão, não poderia deixar meu seguidor virtual sem resposta. A foi a seguinte:

“Discordo. E discordo por alguns motivos. Não são apenas idiotas de vermelho como não foram idiotas de verde amarelo pedir da saída de Dilma e a prisão de Lula. Por questão de lógica, ou todos são idiotas ou, apenas, exercem seu direito à livre manifestação de seu pensamento e de tomar, pacificamente, as ruas. Além disso, ao tratar com menoscabo a moral, que você entende ausente, dos que foram às ruas, você se coloca numa condição de moral superior. Esse costume sempre foi da esquerda, especialmente do PT. Outro ponto é que as manifestações em sociedades em rede e hiperconectada não são mais facilmente manobráveis por partidos, movimentos sociais ou sindicatos. Assim, esse menosprezo que você evidencia e, também, o governo, pode ser perigoso. Collor foi arrogante, bem como Dilma – ambos desprezaram os manifestantes. Deixo, a você, meu cordial abraço”.

Logo depois, a mesma foto, no Facebook, teve comentário de um ex-aluno:

“Direito de todos manifestar indignação com qualquer governo, mas levantar bandeira de partido político e gritar Lula Livre, só mostra que não estão pela educação, estão pela guerra ideológica travada entre situação e oposição”.

E, novamente, minha resposta:

“Nos protestos pelo impeachment e a favor da prisão do Lula tinha gente que levantava bandeira pela intervenção militar, pela volta da ditatura e pela volta da monarquia. É assim mesmo”.

Claro que as redes sociais estão, hodiernamente, tomadas de superficialidade e de ódio, muitas vezes. Mas, mesmo com esse enorme limitadores, há espaço para o diálogo crítico e respeitoso. Fui já várias vezes excluído ou ofendido nas redes sociais quando fazia crítica ao Lula e aos petistas e, agora, o mesmo se dá ao tecer críticas ao Bolsonaro e aos bolsonaristas. Busco, com evidentes limitações, manter a coerência e a honestidade intelectual. Não dissemino ódio. Não permito que, em meus perfis, ódio seja direcionado aos que pensam diferente. Particularmente, não tenho problemas em conviver com pessoas de esquerda, de direita, sociais democratas, liberais, conservadores. A régua, para mim, está na democracia e nos direitos humanos como valores inegociáveis. 

A situação política no Brasil não está fácil. No mundo idem. Cabe, dentro de nossas capacidades, fazer uma boa discussão, com respeito, ética e educação. Enfrentar as fake news e a pós-verdade não é objetivo apenas de cientistas sociais, mas de todo o cidadão bem-intencionado e consciente das fragilidades que se avolumam no bojo da democracia. Não é fácil, mas vale a pena, por enquanto. 

Por Rodrigo Augusto Prando
Professor e Pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie, do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas. Graduado, Bacharel e Licenciado, em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp