O SENTIMENTO PRESIDENCIAL

Em tempos que pululam as fake news e avolumam-se as dimensões tentaculares da pós-verdade é recomendável recorrer, às vezes, ao conhecimento dicionarizado, buscando o significado das palavras. Sentimento, eis . Vejamos. Segundo o Dicionário Michaelis, o termo “sentimento” pode ser definido como: 1) Ato ou efeito de sentir (-se), 2) Capacidade ou aptidão para sentir; disposição para ser facilmente comovido ou impressionado; sensibilidade; 3) Faculdade de conhecer, apreciar, perceber, noção, senso; 4) Atitude moral ou mental que se caracteriza pelo estado afetivo; 5) Ligação afetiva e amorosa em relação a alguém ou algo, afeição, afeto, amor; 6) Percepção intuitiva, conhecimento imediato, intuição, pressentimento, suspeita; 7) Demonstração viva, animada, emoção, entusiasmo e 8) Estado afetivo de desprazer, mágoa, pesar, tristeza.

Em duas ocasiões o Presidente Bolsonaro utilizou o termo “sentimento” para corroborar suas falas. Numa oportunidade, afirmou, acerca do pai do presidente da OAB, que ele – Bolsonaro – sabia como o pai do advogado havia morrido nos tempos da ditatura e que poderia contar, se quisessem, mas que não gostariam de saber a verdade, pois havia sido morto pelos seus próprios companheiros por meio de justiçamento. Ao ser questionado pelos jornalistas se havia provas daquilo que dizia, o presidente afirmou tratar-se de seu sentimento. Há alguns dias, novamente, o sentimento presidencial preponderou: afirmou que as queimadas na Amazônia poderiam ter origem no ato criminoso de ONGs que iriam aos locais para iniciar o fogo, depois filmar, divulgar e, isso, para manter uma guerra contra o Governo. Novamente, indago se há investigações acerca de grave afirmação, indícios ou provas, disse que era seu sentimento. Em quais, caro leitor, das definições do dicionário, acima, essas duas falas do Presidente Bolsonaro se enquadra? Seria, certamente, enquadrada em “atitude moral ou mental que se caracteriza pelo estado afetivo”, “percepção intuitiva, conhecimento imediato, intuição, pressentimento, suspeita”.

Por Rodrigo Augusto Prando
Professor e Pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie, do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas. Graduado, Bacharel e Licenciado, em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp