PRESIDENTE, GOVERNO, INSTITUIÇÕES E A SOCIEDADE BRASILEIRA

Terminaremos, em breve, o oitavo mês sob a administração do Governo Bolsonaro. A sociedade brasileira vivencia, ainda, grave crise econômica. O estrago deixado por Dilma Rousseff não foi pouco. Então, no caso em voga, Bolsonaro herdou situação complicada, mas ao concorrer e sair vitorioso sabia o que lhe esperava. A indagação, portanto, que se pode colocar é a seguinte: até o momento, o balanço é positivo ou negativo? Vejamos.

Ao que tudo indica, a famigerada reforma da previdência será, realmente, aprovada. Não é a ideal, mas a possível no atual cenário. A reforma, contudo, sairá com e a despeito de Bolsonaro, pois o presidente não foi o grande articulador e incentivador. Há mais méritos de Maia, Presidente da Câmara, do que do Executivo. Mas, no limite, com a aprovação o ganho de capital político será do governo, visto que sinalizará para o mercado o cumprimento de promessa de campanha, pensamento de médio prazo e sustentabilidade do orçamento público, entre outros aspectos importantes. Além disso, há a MP da Liberdade Econômica que, mesmo alterada por conta das negociações, tende a ajudar na melhoria do ambiente econômico e de desburocratização. Em pauta, também, a reforma tributária assaz necessária, ainda que sua discussão seja extremamente complexa e com mais divergências, possivelmente, que a da Previdência. E, não faz muito, o governo torna pública uma lista de empresas estatais que poderão ser privatizadas. Neste ponto, os liberais entendem a medida como tímida, já que, Paulo Guedes à frente, gostariam de privatizar de forma mais radical. Em síntese, no que tange à dimensão econômica assentada no liberalismo o governo, aos poucos, vai avançando. 

Rememorando a campanha presidencial, Bolsonaro alicerçou sua plataforma em duas bandeiras: o liberalismo na economia e o conservadorismo nos costumes. Aqui, na conduta política, nos costumes, nas posições ideológicas e em seus discursos é que se encontra a maior fonte de tensão junto à sociedade e às instituições da república. Muitos afirmam – e aplaudem – o fato do presidente ser uma pessoa direta, contrária ao politicamente correto, enfim, um homem simples. Infelizmente, não se pode assumir a condição Presidente sem levar em conta a liturgia do cargo. Desempenhar o papel constitucional de Presidente da República, chefe de governo e de Estado, não é simples. A conduta de um deputado do baixo clero e de um candidato não pode ser estendida à ação presidencial. Por isso, Bolsonaro ao discursar, ao fazer suas lives nas redes sociais ou nas respostas aos jornalistas deveria ponderar, refletir, antes de falar. Suas palavras têm peso, peso institucional. Bolsonaro não representa Jair ou o PSL ou sua família e apoiadores. Não. Bolsonaro, presidente, representa o governo que administra o Estado e a esfera da vida pública, institucional, não pode ser confundida ou misturada com a esfera da vida privada ou partidária. Há, por certo, um ponto a enfatizar: não há estelionato eleitoral por parte dele. Tem se comportado da mesma forma como sempre se comportou. Os que nele votaram ou sabiam que isso ia continuar ou imaginaram que o cargo lhe modificaria o comportamento. Um problema, dentre muitos, é que, na política interna ou nas relações internacionais, as falas e afirmações presidenciais podem levar ao cancelamento de parcerias, congelamento de recursos, recusa em comprar produtos brasileiros ou até mesmo sanções internacionais.

Enfim, poderá o leitor responder, não por conta deste breve artigo, se o saldo destes oito meses é positivo ou negativo. Haverá, na resposta, os valores que nos orientam, nossas formas de sentir, pensar e agir em nossa sociedade.

Por Rodrigo Augusto Prando
Professor e Pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie, do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas. Graduado, Bacharel e Licenciado, em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp