AS PESQUISAS E O PRESIDENTE BOLSONARO

As recentes pesquisas confirmam um dado que se delineia desde o início do Governo Bolsonaro: sua reprovação aumenta e sua aprovação diminui. O fato, aqui, é que o próprio presidente ou os seus – ministros, familiares ou apoiadores convictos – são os responsáveis pelas crises que abalaram o Planalto. A oposição, PT à frente, foram pouco presentes no enfrentamento das teses governistas.

Bolsonaro, particularmente (mas seguido de perto por alguns ministros), escolheu um estilo de gestão assentado no confronto, no constante conflito, elegendo, para governar, inimigos. Manteve, assim, a lógica eleitoral da campanha animada, mas tensionou as relações com os atores políticos, com as instituições e com a própria sociedade. Provavelmente, essa será a estratégia objetivando as eleições em 2022, buscando a manutenção de uma base de apoio em cerca de 30% do eleitorado, que já um número assaz expressivo.

Na pesquisa Datafolha, divulgada em 02/09, os números indicam que as pessoas que reprovam (consideram a administração ruim ou péssima) chegaram a 38%, um aumento de cinco pontos em relação à última rodada da pesquisa em julho; para 30% a administração é regular e 29% aprovam (consideram bom ou ótimo). Um outro dado é que daqueles que declararam voto em Bolsonaro, no segundo turno, apresenta um índice de 57% de aprovação do governo; e, ao contrário, os que votaram em Haddad e reprovam a administração são 69%. Num exercício hipotético, de um novo segundo turno entre PT e PSL, segundo a pesquisa, o resultado seria outro: Haddad venceria Bolsonaro por 42% a 36%. Tal informação foi considerada com desdém pelos apoiadores do governo, contudo, o número traz um elemento interessante: muitos dos que rejeitaram Haddad mudariam, hoje, de lado. A eleição de 2018 foi singular em muitos aspectos. Foi uma votação alicerçada sobre a rejeição, o medo e muito ódio nas ruas e nas redes sociais. O eleitorado de Bolsonaro contou, assim, com um percentual de bolsonaristas convictos; com os que rejeitavam Haddad, o PT e Lula; o eleitor do “lavajatismo”; uma parcela de liberais que acreditaram na presença de Paulo Guedes; e, por fim, eleitores órfãos do PSDB. As entrevistas, discursos e ações do Governo Bolsonaro mantem, ao que parece, forte a base de bolsonaristas convictos e parte do lavajatismo, todavia, indica deserção naqueles que rejeitam o PT, nos liberais e nos órfãos do PSDB. Veremos, por isso, se a estratégia do confronto como estilo de governo será suficiente para chegar com vigor eleitoral em 2022.

Noutra pesquisa, XP/Ipespe, que também veio à tona em 02/09, informa-se que a reprovação do governo está em 41%; 30% aprovam e 37% o consideram regular. Os dados indicam que é o pior resultado desde que o levantamento teve início, pois em fevereiro a curva estava invertida, com cerca de 40% de ótimo e bom e 17% de ruim e péssimo. Os resultados, dentro da margem de erro, são muito próximos da pesquisa Datafolha.    

Como de costume, a reação de Bolsonaro e de seus apoiadores foi de condenar o carteiro pela mensagem ruim. Nestes oito meses, o fulcro da gestão foi de buscar a superação do “presidencialismo de coalização” que, erroneamente, foi, logo, jogado na vala do descrédito, nomeado de “velha política”. A política, então, foi da necessidade do diálogo, das negociações e do convencimento para o confronto, imposição e certezas absolutas. Novamente, há que se considerar que é uma estratégia, estratégia que, em tempos eleitorais mostrou-se certeira (e numa conjuntura muito peculiar), mas no âmbito da administração do Estado tem sido reprovada. Os inimigos do governo – reais ou imaginários, próximos ou distantes, concretos ou virtuais, internos e externos – foram atacados impiedosamente pelo Presidente da República e pelos bolsonaristas. E os resultados são de que os outros Poderes (Legislativo e Judiciário) tem, como há tempos não se via, exercido seus papéis de serem os contrapesos e freios aos desejos, valores e projetos do Executivo. Para um presidente com formação militar, uma questão chama a atenção: abre muitos flancos de batalha e ao mesmo tempo, com a mídia, com a “velha política”, com Rodrigo Maia, com o STF, com universitários, com professores, com ambientalistas, com as Ciências Sociais,  com outros presidentes, com técnicos e cientistas, enfim, uma ampla gama de atores sociais. 

O cenário para os próximos meses é da aprovação da Reforma da Previdência, no Senado; mas com a pergunta: e o “day after”? Outro ponto é que há indicadores concretos que os recursos para inúmeros órgãos governamentais acabam antes do final do ano. Nada fácil. O famigerado pacote anticrime do Ministro Sergio Moro não andou. Moro de “super” passou a “micro” ministro, numa conjugação de afagos presidenciais mesclado com desautorizações de seu poder e até constrangimentos públicos. O caldo está entornando: Coaf fora da orbita de Moro, intervenção no INPE, modificações na Polícia Federal e, para não ficar nestas plagas, problemas com Alemanha, Noruega e França, que reagiram por conta do aumento de desmatamento e queimadas na região Amazônica. 

Há, enfim, para o Presidente Bolsonaro, um dilema: manter a chama bolsonarista acesa e ideologicamente forte até 2022 e com isso esgarçar o tecido social e seus índices de aprovação e reputação internacional ou modificar essa lógica de governar com base no confronto de inimigos e manter um diálogo com as forças políticas e sociais. O que será escolhido? O que dará certo? Façam suas apostas. 

Por Rodrigo Augusto Prando
Professor e Pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie, do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas. Graduado, Bacharel e Licenciado, em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp

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