Neopopulismo Digital: uma usina de mentiras

O confinamento mudou radicalmente nossas rotinas, suspendendo a normalidade de nossas vidas cotidianas. Restringidos ao espaço doméstico, temos como fiéis companheiras, a Internet e a TV. Estes dois veículos midiáticos podem ser de grande importância, na prevenção, na orientação e na propagação de informações relevantes no combate ao coronavírus, mas podem ser também desvirtuados de seus fins.

Independente do viés político e ideológico de uma emissora de televisão, o que não se pode negar é que existe ali um jornalismo profissional, que se não for praticado de maneira minimamente séria, a perda de capital financeiro e midiático será enorme para a empresa de comunicação. Já na Internet, especialmente nas redes sociais, a coisa não é bem assim. Ali reina uma verdadeira terra sem lei, na qual temos verdadeiras usinas de fake news, de mentiras deslavadas, criadas simplesmente com o propósito de arrebatar discípulos para uma causa nada nobre. Em tempos de coronavírus e isolamento social, fica mais fácil perceber o poder devastador deste submundo. No campo da política, o neopopulismo digital perpetrado por uma série de grupos políticos ao redor do mundo e, especialmente, no Brasil, tem promovido grandes estragos na Nação, nas nossas noções de democracia e nos valores republicanos. Os proponentes e os consumidores de fake news no campo do neopopulismo digital, geralmente são pessoas negacionistas, são aqueles que negam o poder da ciência, das pesquisas, do aquecimento global, do jornalismo sério e investigativo e agora, negam também o poder letal da covid-19, além disso, podem ser classificados também como autorreferentes, já que o critério de verdade passa a ser os seus “achismos” e os balões de ensaio disseminados pelos gurus deste espectro sectário. O Datafolha, em recente pesquisa, questionou se o indivíduo “confia ou não confia nas informações sobre o coronavírus divulgadas”, tendo as seguintes respostas: jornais impressos – 56% confia, 11% não confia, 25% em parte e 7% não utiliza; programas jornalísticos da TV – 61% confiam, 12% não confiam, 25% em parte e 2% não utiliza; sites de notícias – 38% confiam, 22% não confiam, 35% confiam em parte e 5% não utilizam; programas jornalísticos de rádio – 50% confiam, 11% não confiam, 21% em parte e 17% não utilizam; WhatsApp – 12% confiam, 58% não confiam, 24% em parte e 6% não utilizam; o Facebook – 12% confiam, 50% não confiam; 25% confiam em parte e 13% não utilizam.  Percebe-se, aqui, que os ventos podem, neste momento de pandemia, estar mudando e, com isso, ganham notoriedade e confiança o jornalismo profissional e o trabalho dos cientistas.

Os neopopulistas digitais apostam na tática do conflito diário como método, exploram dicotomias absurdas, tais como, a economia ou a vida, promovem o linchamento virtual de adversários políticos, estimulam a dúvida e espalham teorias de conspiração a fim de conquistar incautos. O que podemos fazer para combater este vírus da desinformação? Sem esgotar as respostas, é possível, em primeiro lugar, adotar uma postura crítica, desconfiar de mensagens sem fonte confiável; não encaminhar e divulgar aquilo que não se tem certeza; ter, no seu celular, o link do Ministério da Saúde https://saude.gov.br e assim que receber algo duvidoso, responda enviando o link; e, por fim, conhecer a agências de fact-checking, que checam fatos e dados e combatem fake news: Lupa, Fato ou Fake, Aos Fatos, Estadão Verifica e UOL Confere, por exemplo.

Por Rodrigo Augusto Prando¹ e Gerson Leite de Moraes²
¹Professor e Pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie, do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas. Graduado, Bacharel e Licenciado, em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unes/ ²Professor e Pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie e Doutor em Filosofia, pela Unicamp.