NA PANDEMIA A INVISIBILIDADE SOCIAL É VISÍVEL

Há uma semana, mais ou menos, uma jornalista realizou entrevista comigo acerca das profissões que, geralmente, são invisíveis, ignoradas mesmo, mas, agora, em plena pandemia, ganham destaque por sua presença ou ausência no cotidiano de nossas famílias. Quero, portanto, neste rápido artigo, retomar alguns pontos que considero relevantes e que já havia tratado num texto de 2003.

Numa dissertação de mestrado de Fernando Braga da Costa, intitulada Garis – um estudo de psicologia sobre a invisibilidade pública, defendida na Universidade de São Paulo (USP),  em 2002 ( e que em 2004 foi publicada na forma de livro: Homens Invisíveis – pela Editora Globo) temos boas referências para melhor compreender esse fenômeno da “invisibilidade social”. Na pesquisa, Costa vestiu-se e trabalhou como gari por meio período na USP. Foi, para ele, uma surpresa perceber muitos de seus professores e colegas de seu círculo mais próximo de relacionamento passavam por ele, cotidianamente, e, mesmo assim, nunca era reconhecido e tampouco lhe dirigiam a palavra. Em sua investigação, identificou que há um fosso que separa os indivíduos e os grupos sociais, dependendo de sua ocupação na divisão do trabalho. Os garis – mas, também, coletores de material reciclado, empregadas domésticas, babás, entregadores, motoboys, caixas de supermercado, enfim, uma ampla gama de trabalhadores manuais – ocupam funções laborais que são, quase sempre desprezadas, e os tornam socialmente invisíveis. As roupas são, exteriormente, símbolos percebidos em nossos relacionamentos cotidianos e demarcam as posições na desigual estrutura social brasileira. Assim, se há o uniforme do gari que estigmatiza; há, também, o jaleco do médico que traz status. Em nosso isolamento social, pululam depoimentos dos que estão limpando a casa, passando suas roupas, cozinhando e agradecendo que as compras cheguem com segurança e o devido distanciamento sanitário em suas moradas. Para a grande parte dos brasileiros, trabalhar fora e em casa e cuidar dos filhos é a regra e não a exceção. A sociedade brasileira alicerçou-se sobre uma economia escravocrata por quase 400 anos e isso deixou profundas marcas em nosso comportamento individual e coletivo. Há o trabalho desejado e entendido como digno, limpo, em mangas de camisa, geralmente, atividades intelectuais, de gestão, liderança e com formação no ensino superior – aquelas do home office; e há o trabalho em  que  é necessário colocar a mão na massa, suar no “chão de fábrica” ou estarem à disposição para nos servir. À guisa de exemplo, não me esqueço de quando, na Espanha, após uma palestra que proferi, saí para almoçar com colegas professores e pesquisadores. No restaurante, já devidamente acomodados na mesa, percebi que os garis, do lado de fora, encostaram seus carrinhos, vassouras e pás, tiraram seus coletes reflexivos e entraram no restaurante. Lavaram as mãos e pediram o mesmo prato que nós e tomaram a mesma cerveja. Onde e quando, no Brasil, a classe média ou a elite econômica, se sentaria no mesmo ambiente com lixeiros para almoçar? 

O cenário atual apresenta, sociologicamente, a visibilidade dos que, historicamente, foram ignorados, coisificados e marginalizados. Nosso ritmo histórico é desigual, a economia avançou e nos modernizou, mas a mentalidade, ainda, é atrasada e tem um tanto de estamental, aristocrática e avessa à igualdade.

Por Rodrigo Augusto Prando
Professor e Pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie, do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas. Graduado, Bacharel e Licenciado, em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp