O OCASO DO MINISTRO MANDETTA

Ao fim e ao cabo a lógica bolsonarista no poder venceu: o Ministro Luiz Henrique Mandetta foi demitido. Sabia-se que era questão de tempo e seguiu o mesmo roteiro de outros ministros já desligados que, antes da saída do governo, foram, durante dias e semanas, “queimados” por Bolsonaro e pelos bolsonaristas, nas redes e nas ruas. 

Questionaram-me os jornalistas qual o principal motivo da demissão de Mandetta. Seria por ciúmes presidencial ao constatar que seu subordinado apresenta, segundo pesquisas, mais credibilidade e confiança que o mandatário? Ou, então, pela discordância entre o isolamento social preconizado pelo ex-ministro e a preocupação do presidente com as consequências econômicas desse isolamento prolongado? Penso, aqui, que seja uma conjugação destas duas e, quem sabe, de algo ainda não visível.

 O propalado ciúme e irritação de Bolsonaro com Mandetta foi evolutivo e, talvez, tenha tido seu ponto zero na presença de Mandetta junto ao Governador de São Paulo, João Doria, numa entrevista coletiva. É certo que Doria que nunca escondeu suas pretensões presidenciais, desde prefeito da cidade de São Paulo, é inimigo preferencial de Bolsonaro com vistas à disputa de 2022. Assim, quando viu seu ministro ao lado de Doria, o presidente ligou algumas vezes, ainda durante a entrevista, e Mandetta não o atendeu levando à ira presidencial. Seguiram-se sucessivas falas do ministro recomendando, à luz da ciência, dos fatos e dos protocolos médicos, que o isolamento social é fundamental para o achatamento da curva de contaminação e, assim, não colapsar o sistema de saúde. E, reiteradas vezes, Bolsonaro fez questão de falar a agir distante das recomendações emanadas de seu próprio ministro, cumprimentando apoiadores, fazendo selfies e deixando claro que tínhamos, quando muito, uma “gripezinha” só perigosa aos idosos e portadores de doenças crônicas. Um outro ponto de confronto entre o presidente e o ministro deu-se na questão da mediação Cloroquina, pois na visão do presidente o medicamento já poderia ter seu uso amplamente difundido e o ministro-médico pedia precaução na sua utilização, visto que as pesquisas da eficácia no combate ao vírus não são, ainda, conclusiva.  Fato é que as ideias de Bolsonaro não se sustentam diante dos dados científicos: a covid-19 é extremamente agressiva e o isolamento vertical (só para o grupo de risco) defendido pelo presidente não apresenta a eficácia do isolamento horizontal (para todos). 

Assim, a realidade foi, paulatinamente, se impondo e isso fortalecia Mandetta e isolava o presidente. Mandetta, dessa forma, recebeu apoio dos atores políticos (deputados e senadores); dos presidentes da Câmara e Senado, Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre, respectivamente; de governadores e prefeitos; de outros ministros considerados técnicos e de parte da ala militar do Planalto. Acuado, Bolsonaro exerceu o poder de mando e isso levou à demissão de um ministro com alto capital político e com imagem de ter enfrentado o poder presidencial e a força virtual bolsonarista. Então, há, sim, esse componente político claro, evidente, na situação da exoneração de Mandetta e o ciúme e incômodo causado por ministro que ousou brilhar mais que o presidente da república. 

Além disso, mais do que o desconforto de ter um liderado mais proeminente que o líder, há no pronunciamento de Bolsonaro – no qual afirmou que o “divórcio foi consensual” – a retomada da tese da necessidade de voltarmos à vida normal para não quebrar a economia do país. Bolsonaro citou a dificuldade que os mais pobres já enfrentam e enfrentarão, ainda mais, com a crise econômica, desemprego e forte queda da renda das famílias resultados da necessidade do isolamento social. O isolamento social é apregoado pela Organização Mundial de Saúde como ação de retardamento das contaminações já que inexiste vacina ou medicamento comprovadamente eficaz contra a doença. Mesmo líderes de outros países que, inicialmente, trataram a pandemia com menoscabo e não foram enfáticos na necessidade de isolamento social tiveram que voltar atrás e adotar medidas mais drásticas com o aumento de contaminados e de óbitos e, também, pedir desculpas pela postura inicial. 

Muitos economistas – e conheço vários deles – indicam que não há possibilidade de se tratar do problema em termos dicotômicos: salvar vidas com o isolamento social X salvar a economia com a retomada da normalidade. Projeções econométricas não são capazes de cravar o que, economicamente, será pior: paralisar setores produtivos por um período de tempo e derrubando o PIB e a renda da população ou o total colapso do sistema de saúde e os impactos de milhares de mortos ainda produtivos. Cientistas, médicos, economistas estão, todos, buscando no seu ferramental analítico e nas teorias que conhecem as chaves explicativas para tratar do problema. Há indicações, ainda preliminares, que os países que adotaram medidas de isolamento social mais drásticas, ainda que em crise econômica, poderão se recuperar mais rapidamente. Agora, não nos enganemos: não será fácil para ninguém, nenhum país. Como acontece no plano pessoal, no qual há indivíduos mais preparados, resilientes e com repertório para suportar essa suspensão de nossa vida cotidiana, há países que, certamente, reúnem melhores condições para atravessar a pandemia e se recuperar com maior velocidade. 

Ainda que Bolsonaro se preocupe com os mais pobres, fica uma dúvida se o cálculo eleitoral não é mais importante do que a preocupação com a pobreza. O pobre e a pobreza, a desigualdade econômica e social, frequentaram, em algum momento, os discursos e ações governamentais? A pauta de Paulo Guedes, na economia, é norteada para essa questão crucial de nossa sociedade: o gritante, abissal, nível de desigualdade econômica e social? Creio – e posso estar equivocado – que existe, sim, essa preocupação por parte do governo com os mais pobres, contudo, parece mais evidente que prepondere o cálculo eleitoral e o projeto de poder que se vislumbra com a reeleição para 2022. É comum em cenários eleitorais que uma crise econômica traga enorme dificuldade para os políticos, especialmente, os da situação que buscam reeleição ou continuidade por meio de seus aliados e indicados. Crise econômica é péssima para reeleições, independente de onde se iniciaram. 

O ocaso de Mandetta deu-se, assim, por motivações políticas no plano mais pessoal e íntimo, mas, também, no âmbito das intenções eleitorais de não se chegar em 2022 com uma aguda crise econômica capaz de inviabilizar a reeleição de Bolsonaro. Se o pior cenário, de profunda crise, se concretizar no futuro, buscará o presidente se eximir de responsabilidade jogando na conta dos governadores que defenderam o isolamento social e a paralisação dos setores produtivos. Ao passo que governadores, por exemplo, poderão responder que, com isso, salvaram milhares de vidas e o próprio sistema de saúde. Com panelaços e gritos de “Fora Bolsonaro” em várias cidades do país após a demissão, depreende-se que Mandetta saí altivo e com alto capital político e que Bolsonaro permanece ainda isolado politicamente. Que o novo Ministro da Saúde, Nelson Taich, possa desempenhar suas funções da melhor forma possível e que tenha sucesso à frente da pasta.  No mínimo, Taich apresenta coragem: assume no lugar de Mandetta muito bem avaliado, publicou artigo defendendo a mesma linha de Mandetta de isolamento social e que contraria o presidente, conhece pouco do setor público, terá como chefe Bolsonaro e, por fim, assume na tempestade pandêmica. É corajoso!   

Por Rodrigo Augusto Prando
Professor e Pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie, do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas. Graduado, Bacharel e Licenciado, em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp