BOLSONARO E A BASE DE APOIO BOLSONARISTA

Estamos, todos, em maior ou menor grau, angustiados por conta da pandemia. Nossa vida social foi interrompida, muitos já estão sem trabalho e sem renda e, pior, sabemos que tudo se agravará sensivelmente. Já não bastasse a gravidade da Covid-19, temos um presidente muito aquém daquilo que se espera de um político para liderar o país no equacionamento e no enfrentamento da situação. O Presidente Bolsonaro vai do “E daí?” ao passeio de jet ski se isolando politicamente e perdendo o controle efetivo de seu governo. Como, portanto, nesse cenário ele, Bolsonaro, ainda ostenta cerca de 30% de apoio? A resposta depende de revisitar seu eleitorado em 2018 e, também, de verificar as últimas pesquisas realizadas.

O eleitorado de Bolsonaro é multifacetado. Há o “bolsonarista raiz”, aquele que se identifica com a agenda liberal na economia e conservadora nos costumes e, não raro, os mais radicalizados clamam por intervenção militar, pela volta da ditadura e pelo fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal. É, portanto, no uso da liberdade de expressão e na democracia que o bolsonarista raiz pede o fim da liberdade e da própria democracia. Além destes, havia, em 2018, uma parcela considerável que nutria rejeição – ou mesmo ódio – pelo Partido dos Trabalhadores e seus candidatos. Um tanto, também, de eleitores eram os que acreditavam na agenda liberal, na reestruturação e diminuição do papel do Estado e da valorização dos empreendedores e da melhoria de nossa liberdade econômica. Pode-se, ainda, aventar a hipótese de eleitores “órfãos” do PSDB, pois, nos mapas eleitorais anteriores, o estado de São Paulo, sozinho, colocou os candidatos tucanos no segundo turno e a região Nordeste levava o candidato do PT no segundo turno. Em 2018, o Nordeste continuou com Haddad, todavia, o estado de São Paulo foi com Bolsonaro, bem como este foi vitorioso nas Minhas Gerais, no Rio de Janeiro e nos estados do Sul. Outro contingente não desprezível dos eleitores foram os “lavajatistas” identificados com a luta contra a corrupção e com a Lava Jato, tendo na figura de Sergio Moro seu principal símbolo. E, por fim, um grupo considerável de eleitores ligados à chamada bancada BBB (boi, bala e Bíblia), compostos por integrantes do agronegócio, das polícias militares e civis e das forças armadas e de uma parcela significativa de evangélicos. 

Como, então, explicar que mesmo isolado politicamente em relação ao combate da pandemia, com cerca de 30 pedidos de impeachment, com declarações e ações cada vez mais distantes da ciência e dos valores democráticos e com investigações no âmbito do STF, Bolsonaro consiga manter esse apoio? 

Em pesquisa (04/05), da XP/Ipesp, a aprovação (soma de ótimo e bom) de Bolsonaro caiu 4 pontos percentuais, de 31% para 27%. Além disso, a avaliação negativa (soma de ruim e péssimo) teve um aumento de 7 pontos, passando de 33% para 40%; por fim, os que consideram o governo regular ficou caiu de 28% para 26%, cuja margem de erro da pesquisa é de 3,2 pontos percentuais. Assim, pode-se depreender que a queda da aprovação ficou quase dentro da margem de erro, mas a reprovação realmente aumentou. Essa pesquisa veio à tona com dados coletados após a saída de Moro do governo. Sabendo que muitos dos lavajatistas se tornaram “moristas”, defensores mais enfáticos de Moro do que de Bolsonaro, muitos já vislumbravam um baque maior com a saída de Moro na base de apoio bolsonarista. Em outra pesquisa (12/05), CNT/MDA, indica-se que o presidente perdeu apoio de parte da população a atingiu a pior avaliação de sua gestão e pessoal desde o início do mandato.  Os que aprovam o governo (ótimo e bom) passou de 35,5% para 32%; contudo, a reprovação (ruim e péssimo) cresceu expressivamente, passando de 31% para 43,4% em quatro meses. Os que avaliam o governo como regular foi 32,1% para 22,9%. Acerca do desempenho pessoal do presidente na gestão do governo, temos que havia um apoio de 47,8% e, agora, 39,2%; a desaprovação subiu de 47% para 55,4%.

Seja na pesquisa XP/Ipesp ou na CNT/MDA, a base bolsonarista apresenta, ainda, cerca de 30% de apoio a Bolsonaro: 27% e 32%, respectivamente. O que isso significa? Algumas hipóteses podem ser aventadas. A primeira é que, realmente, o “bolsonarismo raiz” de um lado e o medo da volta do PT, por exemplo, de outro lado, estão garantindo esse percentual ao presidente. Especialmente, no “bolsonarista raiz” há uma identificação e fidelidade altíssima em relação às ideias e ações presidenciais. Esse núcleo duro bolsonarista não parece, por enquanto, apresentar nenhuma fissura. Em 2019, foi publicado o livro “A eleição disruptiva: por que Bolsonaro venceu”, de Maurício Moura e Juliano Corbellini, e na obra os autores asseveram que: “Como podemos observar, os eleitores percebiam Bolsonaro como um líder preconceituoso, machistas e homofóbico. Fato é, porém, que uma parte do nosso eleitorado também é assim, e nunca se saberá ao certo qual o seu tamanho porque poucos se assumiriam como tal” (eu, aqui, acrescentaria que esse eleitor também pende para o autoritarismo). Naquilo que tenho, há tempos, chamado de presidencialismo de confrontação, do constante embate e esgarçamento do tecido democrático e das instituições republicanas, especialmente por sua linguagem e ações agressivas, Moura e Corbellini afirmam que “a energia, a belicosidade na fala de Bolsonaro, afrontando constantemente e deliberadamente o politicamente correto, também, o ajudou a dominar essa agenda”. Em síntese, concluem os referidos autores: “Bolsonaro ocupou um espaço conservador que é expressivo no Brasil e que esteve órfão de uma liderança na política nacional no curso de toda a era de polarização PT x PSDB. Encaixou Deus no centro de sua mensagem (“Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”)”. A segunda hipótese, é que com esses 30% de apoio (soma de ótimo e bom) nenhuma força política, nem Maia e nem ninguém, vai querer dar início a um processo de impeachment – para isso ocorrer há que se ter uma aprovação em torno de 10%. E, em terceiro lugar, há, caso Bolsonaro conclua seu mandato, chances evidentes de, concorrendo à reeleição, de se colocar no segundo turno. A matemática, aqui, pode parecer até simples: se há 30% de apoio fiel a Bolsonaro e cerca de 70% (os que desaprovam e os que consideram regular e que podem votar noutro candidato) virtualmente contrários ao presidente, ele seria derrotado facilmente. Aí, é que reside o problema: neste universo dos 70% há uma ampla gama que vai da esquerda mais radical, da esquerda, da centro-esquerda e da centro-direita e da direita mais liberal e democrática e até o momento essa ampla gama de denominações políticas não consegue superar o que os afasta em prol daquilo que, por ventura, pode lhes unir.

O fascínio que a política exerce sobre nós está, especialmente, ligada às ações humanas e a impossibilidade de certezas. Nos atores políticos, a força das ideias, dos discursos e as ações concretas encontram-se conectadas direta ou indiretamente com as ideias, discursos e ações de centenas de outros indivíduos e num dado cenário. Não há, por mais que pesquisas possam apontar tendências, como cravar o quadro preciso no futuro. Bolsonaro tem, por enquanto, esses 30% de apoio no eleitorado e generais no Planalto, que lhe garantem na cadeira presidencial. Mas, o poder é fugidio e nunca fica órfão. Não há como prever o impacto das milhares de mortes e a crise econômica pós-pandemia e o custo político disso para o presidente, bem como as ações de investigação em curso no STF. Outras lideranças políticas podem surgir e desgastar a força do bolsonarismo raiz. O futuro político e da Política não está previamente definido. A compreensão do passado e do presente são primordiais para, ao menos,  projetar as ações a serem desencadeadas no médio e longo prazo.

Por Rodrigo Augusto Prando
Professor e Pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie, do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas. Graduado, Bacharel e Licenciado, em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp