LULA AINDA QUER SER O DONO DA BOLA

Nos últimos dias manifestos suprapartidários ganharam as páginas inteiras de jornais e das redes sociais. Tais manifestos, em sua essência, buscam contrapor-se ao Governo Bolsonaro, especialmente, em defesa das instituições e do constante ataque à democracia por parte do bolsonarismo. Lula, contudo, não aceitou participar e fez críticas às iniciativas.

O líder petista afirmou que leu os textos e que “tem pouca coisa do interesse da classe trabalhadora” e, ainda, que “não se fala em classe trabalhadora e nos direitos perdidos”. E arremata: “Eu não tenho mais idade para ser maria vai com as outras. O PT já tem história neste país, já tem administração exemplar neste país. Eu, sinceramente, não tenho condições de assinar determinados documentos com determinadas pessoas”. Ainda segundo Lula, que se recusa a conversar e agir junto a outros ex-presidentes, Fernando Henrique Cardoso e Temer não são democratas. Um dos manifestos, o “#JUNTOS”,  afirma: “Somos a maioria e exigimos que nossos representantes e lideranças políticas exerçam com afinco e dignidade seu papel diante da devastadora crise sanitária, política e econômica que atravessa o país” (www.movimentoestamosjuntos.org). Entre vários signatários, destaco, apenas, alguns nomes: André Singer, Boris Fausto, Caetano Veloso, Celso Lafer, Cristovam Buarque, Dom Odílio Sherer, Fernando Haddad, Fernando Henrique Cardoso, Flávio Dino, Lobão, Luciano Huck, Luiza Erundina, Manuela Davila, Marcelo Freixo, entre outros. Nestes nomes, percebe-se a pluralidade ideológica, mas, mesmo assim, não são nomes que, na ótica de Lula, merecem estar junto ao dele. Lula – e parte do PT – buscam agira hegemonicamente, seja sobre a esquerda ou sobre os demais partidos. Em seu livro “Miséria da política: crônicas do lulopetismo e outros escritos”, Fernando Henrique Cardoso assevera que o “[…] PT tem vocação de hegemonia. Não vê a política como um jogo de diversidade no qual as maiorias se compõem para fins específicos, mas sem a pretensão de absorver a vida política nacional sob um comando centralizado” (p.188). Quando, corretamente, à luz dos números apresenta-se que, nas pesquisas, há 70% que consideram o Governo Bolsonaro regular, ruim e péssimo e apenas 30% que o considera bom e ótimo, deixa-se de entender algo assaz importante que é a unidade. Os 30% de bolsonaristas, até o momento, mostram-se coesos e resilientes, dispostos, ao que parece, seguir com o presidente por qualquer caminho que ele escolha. Já, os 70% congregam colorações político-partidárias e ideológicas à esquerda, centro-esquerda, centro, centro-direita, direta e até liberais e conservadores fora dos partidos que se distanciam das teses bolsonaristas. E, nos 70%, a agenda ainda não foi unificada e nem uma visão estratégica estabelecida. Será que tucanos (FHC, em particular) que foram, segundo a narrativa petista, atacados por deixarem ao país uma “herança maldita”; será que Marina Silva, duramente atacada em 2014 pela campanha de Dilma; será que Ciro Gomes, isolado por Lula em 2108, será que esses atores estariam dispostos a abrir mão daquilo que os separa em prol daquilo que os uniria numa disputa com Bolsonaro? Pela própria postura de Lula, creio ser muito difícil e, com isso, a água continua rumando para o moinho bolsonarista. Interesses políticos pessoais e partidários – legítimos, vale ressaltar – cederiam espaço para uma tão propalada “frente ampla” como se deu, historicamente, durante a campanha pelas “Diretas Já”? A movimentação e uma reação mais contundente ao governo nas ruas e nas redes parece ter se iniciado, ainda que os atores políticos institucionais (deputados e senadores, principalmente) estejam distantes.

O Governo Lula e o PT trouxeram avanços à sociedade brasileira: diminuição da miséria, aumento da classe média, do consumo de várias camadas sociais; mas, também, são responsáveis pelo mensalão e pelo desastre do Governo Dilma. Governos, todos, independente de qual partido ou coalisão, devem ser avaliados pelo seus resultados, reconhecendo acertos e erros. Lula, até aqui, assume a lógica do dono da bola. Vai para o jogo, quer escolher os times e, se o placar não lhe é favorável, leva a bola para casa. 

Por Rodrigo Augusto Prando
Professor e Pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie, do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas. Graduado, Bacharel e Licenciado, em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp