CIDADÃO, NÃO; ENGENHEIRO CIVIL, MELHOR DO QUE VOCÊ

Provavelmente, o título traz à recente memória do leitor a cena, no Rio de Janeiro, da fala de uma mulher, respondendo a um fiscal, que o marido não era um cidadão e sim um engenheiro civil. E completou: “melhor do que você”!

A fala e sua divulgação já teve enorme repercussão: demissão e ameaças. Nos primórdios da pandemia, acreditei – confesso, ingenuamente – que a Covid-19 e a situação do Brasil e do mundo poderia nos trazer à tona um espírito cívico e, ainda, que as diferenças políticas poderiam ser superadas em prol daquilo que nos uniria enquanto nação, especialmente, no enfrentamento das crises sanitária e econômica. Infelizmente, a conjuntura ora vivida só explicitou aquilo que, estruturalmente, já se encontra arraigado na sociedade brasileira, seja no que tange à má distribuição de renda, de oportunidades e da abissal desigualdade, bem como traços culturais profundos. Um destes traços da cultura brasileira revela-se límpido, cristalino, na negação da cidadania e no estabelecimento de hierarquia social quando se busca rebaixar o fiscal que, no exercício de sua função, abordou o famigerado casal. Costume de professor é recomendar livros acerca dos assuntos tratados, então, aqui, perdoem-me, mas reputo como fundamental a leitura de Roberto DaMatta, antropólogo, que, entre muitas obras, destacam-se: “Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro”; “O que faz o brasil, Brasil?” e “A casa & a rua: espaço, cidadania, mulher e morte no Brasil”. Garanto que as ideias e teses de DaMatta nos ajudam, sobremaneira, a entender os mecanismos de navegação social no Brasil. Nosso país, de cultura escravocrata, nos legou uma sociedade fortemente hierarquizada. Nas sociedades estamentais, não há igualdade e as posições sociais são distintivas desde o nascimento, com nula ou baixíssima mobilidade social. O Brasil, no caso, deixou de ser uma sociedade estamental, escravocrata, patriarcal, para acessar à modernidade, a sociedade competitiva capitalista, mas sem superar uma visão e práticas estamentais de mundo. Assim, neste espaço social altamente desigual e hierarquizado, os brasileiros, em grande parte do tempo, sentem-se desconfortáveis na condição de cidadão, que traz, abstratamente, a noção de igualdade de direitos e deveres. Gostamos, isto sim, de uma relação pessoal, assentada no afeto, nas emoções. Aqui, as relações pessoais, afetivas, suplantam a impessoalidade e racionalidade exigidas no espaço público e nas instituições. Ao se deparar com situações problemáticas muitos lançam mão do “jeitinho” e da “malandragem”. Acionando o “jeitinho”, o brasileiro busca uma solução simpática para resolver um determinado imbróglio, quer proximidade e lança mão dos sentimentos, da empatia. Outra estratégia usada, às vezes quando a forma simpática não surte efeito, é o uso do “Você se sabe com quem está falando?”. Com o “jeitinho” espera-se criar, ainda que artificialmente, um ar de igualdade, colocando-se no mesmo plano que o interlocutor; com o “Você sabe com quem está falando?”, ao contrário, a intenção é retomar uma hierarquia e colocar cada um no seu devido lugar. Então, o “Cidadão, não, engenheiro civil, melhor do que você” é a já conhecida variante do “Você sabe com quem está falando?”. E, nestas plagas, cujo bacharelismo ainda prepondera muitos gostam de ostentar o título de doutor, não por conta de um doutorado cursado, de uma profunda pesquisa e tese defendida em uma banca com sessão pública, mas pela diferenciação simbólica que os doutores apresentam ao imaginário social.

Torço, um dia, pelo: “Cidadão, sim! Com orgulho! Cônscio de direitos e deveres! E com respeito às leis e ao Estado Democrático de Direito!

Por Rodrigo Augusto Prando
Professor e Pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie, do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas. Graduado, Bacharel e Licenciado, em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp