BOLSONARO: do silêncio ao teste positivo para Covid-19

Uma semana, dez dias, duas semanas foram noticiadas como um período de silêncio do Presidente Bolsonaro e, portanto, de relativa paz no Planalto e na sociedade brasileira. Estranho, não é? Um presidente que é elogiado quando não fala e quando não cria atritos com os outros Poderes e com as instituições… Sinal dos tempos… Contudo, esse relativo “silêncio obsequioso” foi rompido pela declaração, do próprio presidente, que havia sentido os sintomas do coronavírus e, testando, foi constatada a doença. A situação reclama algumas ponderações.

A princípio, enfatizo que, da mesma forma que condenei a facada desferida durante a campanha política e torci pela recuperação de Bolsonaro, aqui, também, desejo que o presidente não tenha um agravamento do quadro e que se recupere plenamente. Torcer pelo vírus, pela doença agravada ou pela morte é, creio, estar ao lado daqueles que não prezam pela vida, é posicionar-se junto daqueles que, política e eticamente, não valorizam a humanidade, a ciência e negam a gravidade da pandemia. Dito isso, alguns jornalistas me questionaram e muito foi discutido pelo que li se, com a doença, Bolsonaro abandonaria sua visão negacionista e seu menoscabo pela Covid-19. Duvido. Em entrevista, após a confirmação da doença, o presidente, novamente, fez afirmações descabidas e, ainda, fez “propaganda” da hidroxicloroquina, um medicamento cuja eficácia para o tratamento não é referendado cientificamente e nem faz parte dos protocolos dos principais hospitais, no Brasil e no mundo. 

Qual o porquê, então, desse comportamento de Bolsonaro? Max Weber, clássico das Ciências Sociais, em sua obra “Ciência e Política: duas vocações”, definiu a ética da responsabilidade e a ética da convicção. Na conduta alicerçada sobre a ética da responsabilidade, o homem é capaz de realizar uma ação cujas consequências são previsíveis e, por isso, há uma clara adequação entre os meios escolhidos para alcançar determinado fim; neste caso, objetiva-se a eficácia da ação, há a racionalidade imperando. Ao contrário, na ética da convicção,  o ator não se preocupa com os resultados e considera importante manter-se fiel à sua convicção, aos seus valores. O único juiz capaz de julgar suas ações é sua própria consciência, independente do resultado obtido. Assim Weber tratou desta questão: “Vocês perderão o seu tempo expondo da forma mais persuasiva possível, a um sindicalista convencido da verdade da ética da convicção, que o único resultado da sua ação será aumentar as possibilidades de reação; retardar a ação as sua classe, e escravizá-la ainda mais. Ele não acreditará. Quando as consequências de um ato realizado por sua convicção são negativas, o partidário dessa ética não atribuirá a responsabilidade ao agente, mas ao mundo, à tolice dos homens ou à vontade de Deus, que criou os homens como são”.

A política brasileira, com preponderância da ética da convicção, de posições fortemente ideológicas e interditando o diálogo – à esquerda e à direita – tem nos colocado em situações difíceis. A falta de capacidade de leitura do cenário, de conhecimento (científico e filosófico) e de senso crítico são nefastos à sociedade e à democracia. Bolsonaro, assim, na condição de presidente, arraigado às convicções ideológicas não conservadoras e sim, muitas vezes, retrógradas, apresenta enorme dificuldade de inserir uma agenda positiva e uma base parlamentar de apoio. Mobilizar a militância é uma coisa; ganhar eleição é outra; e, por fim, liderar e governar é outra coisa bem distinta. Negar a política e discursar contra a classe dos políticos traz frutos eleitorais, todavia, findada a eleição é impossível ser político e fazer política sem a Política. Nas quase duas semanas de silêncio de Bolsonaro, na aproximação com o Centrão e, principalmente, na presença da figura de Gilberto Kassab no diálogo com o governo, talvez Bolsonaro tenha entendido que a Política se faz com políticos e não apenas com ódio, confronto e redes sociais. Talvez. 

Por fim, poucos, contudo, apostam que esse silêncio presidencial ou sua doença vão mudar sua visão de mundo e seus discursos e ações. Cronistas da política em Brasília advogam que, encalacrado no STF e com a prisão de Queiroz, esse recuo de Bolsonaro foi tático, pois a estratégia continua sendo confrontar os outros Poderes e as instituições e seus atores.

Por Rodrigo Augusto Prando
Professor e Pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie, do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas. Graduado, Bacharel e Licenciado, em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp