Segundo turno marca derrota de Bolsonaro e do PT nas capitais, dizem analistas

Terra – Eleições – 29/11/2020

Presidente não elegeu nenhum de seus apoiados, enquanto petistas obtiveram vitória em cidades populosas de regiões metropolitanas

O resultado do segundo turno das eleições de 2020 consolidou a derrota do presidente Jair Bolsonaro, que não conseguiu eleger nenhum aliado nas cidades mais populosas do País, mas também representou a derrota do PT em todas as capitais do Brasil, fato que ocorre pela primeira vez desde 1985, na avaliação de analistas ouvidos pelo Estadão.

“Neste segundo turno de pandemia, o eleitor ficou distante de qualquer aventura e experimentação e ficou ao lado da gestão, do conhecimento, do diálogo. O discurso polarizado do bolsonarismo e do lulopetismo perdeu espaço”, disse o cientista político Rodrigo Prando, da Universidade Mackenzie.

Para Prando, a crise do coronavírus é um dos fatores que levaram à vitória candidaturas que defendiam a moderação, representada por nomes no centro do espectro ideológico. “Veja que até Guilherme Boulos (PSOL), que é marcado por uma trajetória de enfrentamentos e protestos, se distanciou do discurso polarizado”, afirmou.

Prando avalia que o resultado, no caso do PT, poderia ser recebido como mais um convite para a legenda fazer uma autocrítica sobre sua atuação eleitoral. “O PT sempre quer ser hegemônico, deveria fazer a autocrítica em uma perspectiva interna. Nem sempre dá para ser o cabeça de chapa”, avalia.

A derrota petista nas capitais, entretanto, é relativizada pelo pesquisador do Departamento de Gestão Pública da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Marco Antonio Carvalho Teixeira. “O PT renasceu no ABC, conquistando duas cidades (Mauá e Diadema) e duas importantes cidades de Minas Gerais, Contagem e Juiz de Fora”, afirma. “O partido deve governar uma quantidade de pessoas maior do que em 2016”, afirma.

Neste segundo turno, Bolsonaro havia indicado três nomes como sendo o de seus candidatos: Capitão Wagner (Pros), em Fortaleza, Delegado Federal Eguchi (Patriota), em Belém e Marcelo Crivella (Republicanos), no Rio. Todos perderam neste domingo, 29. Ao todo, dos 16 candidatos que tinham apoio do presidente, 12 perderam. Para os especialistas, a derrota torna inviável a persistência do presidente em lançar um partido e torna mais importante que ele se filie a uma legenda já consolidada caso queira chegar competitivo a 2022.

“A pessoa física do presidente perdeu e talvez seja uma lição para ele: o mito não existe mais”, disse Teixeira. “Ele achou que pudesse fazer a diferença nas eleições, mas não fez. Se não buscar coletivamente uma ação com os partidos, está liquidado”, complementou.

Rodrigo Prando, do Mackenzie, viu no fato de não ter partido uma tentativa inicial de dizer que, na verdade, não apoiou ninguém. “Se o Aliança, o partido que ele queria criar, já tivesse saído do papel, a conta para ele teria saído pior. Hoje a derrota foi carimbada, mas não foi carimbada porque não tinha instituição para carimbar. Se houvesse Aliança, teria.”