SOCIOLOGIA, EDUCAÇÃO E PANDEMIA

O ano de 2020 foi assaz impactante. Fomos, todos, em maior ou menor grau, atingidos pela pandemia. A normalidade de nossa vida cotidiana foi suspensa e estamos em compasso de espera de uma vacina. Sociologicamente, a crise sanitária advinda do coronavírus conjugou-se às crises econômica, política, de liderança e educacional. A situação de crianças e jovens, portanto, alunos e de professores merece especial atenção.

A educação é, no campo da Sociologia, tema fundamental, visto que a escola é instituição socializadora e, por isso, capaz de moldar formas de sentir, pensar e agir, que levamos por toda a vida. A pandemia, em meados de março, logo após o carnaval, nos levou à necessidade de afastamento social, obviamente, para evitar a contaminação de um vírus cuja dinâmica era, ainda, desconhecida e que levava, especialmente na Europa, a milhares de óbitos. As escolas – públicas e particulares -, instituições do ensino superior, entre outras, tiveram suas atividades pedagógicas presenciais interrompidas. Literalmente, de uma hora para outra, estudantes e professores, bem como diversos profissionais da educação, tiveram que se adaptar às aulas remotas, não presenciais, conjugando aulas síncronas e assíncronas. Particularmente, os professores defrontaram-se com ferramentas tecnológicas que não conheciam, alguns, até, sequer tinham familiaridade com computadores, vídeos, áudios, enfim, uma ampla gama de tecnologias, sensações e incertezas postas na ordem do dia. Professores, em grande parte, formados para as aulas presenciais e que, pedagogicamente, levaram em conta a importância da relação pessoal com seus alunos, foram obrigados e alterar, substancialmente, suas estratégias de ensino. Educar, formalmente, nas escolas e universidades, reclama planejamento, seguir um plano de ensino, com objetivos claramente definidos, com ações avaliativas, enfim, educar é uma ação social racional e que demanda tempo para o planejamento e execução. Por isso, a pandemia promoveu uma ruptura em nossas práticas educacionais. Aqui, em casa, fomos, minha esposa e eu, professores universitários e temos um filho de seis anos, com a alfabetização e as primeiras leituras sendo realizadas ao longo deste ano. Confesso, caro leitor e cara leitora, que em dias de aulas síncronas, ao vivo, de minha esposa, do meu filho e minhas a situação foi, no mínimo, terrível. Claro que, em nosso caso, temos computadores e internet estável e com boa velocidade para nossas tarefas escolares e acadêmicas. Entretanto, milhares de professores e estudantes não tem as mesmas condições. A estrutural e histórica desigualdade de renda e de oportunidades que nossa sociedade apresenta se agudizou neste cenário pandêmico. Pobres, moradores da periferia e negros foram mais contaminados, morreram mais e, infelizmente, estarão no grupo dos mais prejudicados no aspecto educacional pós-pandemia. Para quantificar essa realidade, em matéria do jornal O Estado de S. Paulo, em 2510/20, temos que: “pelas métricas dos pesquisadores, os alunos mais pobres são 633% mais afetados pela falta de oferta de atividades escolares que os mais ricos”.

A educação no cenário pós-pandemia terá que ser tratada com especial atenção pelas instituições governamentais, pelas famílias e por toda a sociedade brasileira. O ano foi de enorme dificuldades, mas pode ser de grandes aprendizados. A educação, mais do que nunca, deve e pode fazer a diferença, desde que seja prioridade individual e coletiva.

Por Rodrigo Augusto Prando
Professor e Pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie, do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas. Graduado, Bacharel e Licenciado, em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp