A POLITIZAÇÃO DA VACINA E O BOLSONARISMO

“Todavia não se pode dizer que haja virtude em
exterminar concidadãos, trair os amigos,
não ter fé nem piedade nem religião;
pois é possível conquistar o poder por esses meios,
mas não a glória”
(Nicolau Maquiavel – O Príncipe)

Provavelmente, o ano de 2020 seja palco não apenas de cenas dramáticas de uma pandemia que levou à enfermidade e à morte milhares de pessoas, mas, também, de uma das maiores evoluções no campo da ciência ao se permitir uma vacina em menos de um ano. Ao que tudo indica em 08/12/2020, na Inglaterra, iniciarão a imunização de sua população. E nós, brasileiros, como estamos?

Em nosso país, houve uma conjugação de crises. Crise sanitária, advinda do coronavírus; crise econômica, consequência direta da pandemia; crise política e de liderança, cujo fulcro está nas ações e discursos de Jair Bolsonaro e dos bolsonaristas. Já sabíamos, desde os idos de 2018, que o então deputado Jair Bolsonaro trilhava o caminho sinuoso das redes sociais, especialmente, alicerçado sobre clima de ódio, medo e rejeição – todos característicos da eleição de 2018 – mas, ainda, seguia lépido e à vontade junto às fake news, negacionismos, pós-verdade e teorias da conspiração. Bolsonaro foi eleito, mas não governou nesta primeira metade do mandato. Situação, provavelmente, inédita de um presidente que, por dois anos, confronta as instituições da democracia, os atores políticos e a própria sociedade e que, nos próximos dois anos, buscará sua reeleição. No bojo de seu presidencialismo de confrontação, Bolsonaro e os bolsonaristas foram, como todos nós, jogados numa situação pandêmica que suspendeu a normalidade de nossas vidas cotidianas. Estamos, todos (ou quase), em compasso de espera pela vacina capaz de nos imunizar, já que não há tratamento comprovadamente eficaz para os quadros mais graves da Covid-19. Desafortunadamente, a pandemia encontrou um presidente sem liderança, um governo que não governa e uma sociedade fraturada politicamente, quase em estado de anomia. 

A ciência, os especialistas, os intelectuais públicos, os jornalistas e a Política foram, nestes tempos de bolsonarismo, atacados e, inicialmente, muitos atribuíam às declarações de Bolsonaro uma perspectiva anedótica, caótica. Em Os engenheiros do caos (2019), Giuliano Da Empoli, asseverou que: “No mundo de Donald Trump, de Boris Johnson e de Jair Bolsonaro, cada novo dia nasce com uma gafe, uma polêmica, a eclosão de um escândalo. Mal se está comentando um evento, e esse já é eclipsado por outro, numa espiral infinita que catalisa a atenção e satura a cena midiática” (p.18). Segundo o autor, esse carnaval populista não é desprovido de método e tem, nos bastidores, os “engenheiros do caos”, cientistas especializados em Big Data, ideólogos e consultores políticos que sabem – e muito bem – o porquê de tensionar as regras da democracia e desacreditar a ciência e o jornalismo profissional.

O Brasil, com cerca de 177 mil mortos (43.015 só no estado de São Paulo), como outros países, aguarda, em compasso de espera, uma vacina ou várias capaz de nos devolver à normalidade. Há, como se sabe, iniciativa do Governo Federal numa parceria da Fiocruz, com a Universidade de Oxford e o Laboratório AstraZeneca. Sabe-se, também, que, no estado de São Paulo, há o desenvolvimento da Coronavac, parceria do Instituto Butantan junto ao laboratório chinês Sinovac. Aqui, está o busílis da questão: as duas vacinas colocam em rota de colisão Bolsonaro e o Governador João Doria, que pleiteia projeção nacional e conquista de capital político para se consolidar como candidato à presidência em 2022. Desta forma, houve uma politização da vacina, com bolsonaristas atacando a “vacina chinesa”, a “vacina do Doria” e, não bastasse isso, há suspeitas de que a Anvisa, ao invés de seguir critérios técnicos e científicos, possa, politicamente, estar a serviço do governo federal e, com isso, colocar obstáculos à liberação da Coronavac. Doria anunciou que iniciará a vacinação no estado de São Paulo no dia 25 de janeiro de 2021, mesmo que a Coronavac não tenha – até o momento – o registro da Anvisa. 

 O cenário que se desenha, assim, é bem mais promissor para o estado de São Paulo do que para os demais estados brasileiros. A vacina Fiocruz/Oxford apresentou problemas nos seus testes, especificamente no que tange às doses aplicadas nos voluntários e isto demanda mais estudos, atrasando a conclusão dos testes. Além disso, a produção desta vacina, segundo noticiado, dependerá da construção de uma fábrica e, por isso, mais recursos financeiros do governo federal. Tal fato demonstra que os investimentos e a logística envolvidos não permitirão que vacinas estejam disponíveis em curto prazo, como a Coronavac em São Paulo.  Governadores e prefeitos – já há muito descrentes de qualquer liderança presidencial – já se articulam junto ao Butantan e ao Governo de São Paulo para garantir vacina em seus estados. Ademais, já se vislumbra judicialização via Supremo Tribunal Federal, forçando Bolsonaro a adotar, a contragosto, a Coronavac para todo o país.

O cenário em tela será, por anos, capaz de gerar estudos de caso acerca da liderança e da ausência de liderança política em nosso país e, pari passu, enriquecido com a leitura de Maquiavel e suas reflexões presente n’O Príncipe.

Por Rodrigo Augusto Prando
 Professor e Pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie, do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas. Graduado, Bacharel e Licenciado, em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp

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