Trump, Bolsonaro e a construção de narrativas acerca de fraudes eleitorais

As cenas, ontem, 06/01/21, nos EUA, com ataques de apoiadores de Donald Trump que não reconhecem a vitória de Joe Biden acendem a luz de alerta para os democratas, no mundo todo. Há, aqui, no Brasil, evidentes ressonâncias especialmente pela ligação ideológica do bolsonarismo com as teses conspiratórias de Trump.

Trump foi, por certo, um presidente que aviltou e apequenou a democracia norte-americana. Sua conduta – na campanha e no exercício de seu mandato – esteve alicerçada sobre milhares de fake news, distintas modalidades de negacionismos e pós-verdades e extrema predileção por teorias da conspiração. A derrota de Trump para Biden deu-se no voto popular e no colégio eleitoral, assim, por mais que se afirme que houve fraudes, como fez, incessantemente, Trump, as instituições do país, bem como a mídia que acompanhou o processo eleitoral, atestam e confirmam a legitimidade da vitória de Biden, respectivamente. 

Sabidamente, Bolsonaro e os bolsonaristas alinham-se ao estilo confrontador, de ataques às instituições republicanas e da própria democracia. Os exemplos são inúmeros de manifestações que apoiam o fechamento do Congresso Nacional e do Superior Tribunal Federal. Some-se a isso a fala recente de Bolsonaro que “sem voto impresso em 2022, vamos ter problema pior que os EUA”. O que a afirmação do presidente evidencia? Obviamente, é mais uma construção de narrativas com vistas às eleições em 2022. Assim como o lulopetismo, o bolsonarismo é proeminente em construir narrativas e estas são capazes de alimentar o furor da militância mais coesa e ativa. Não faz muito, Bolsonaro afirmou que o Brasil estaria quebrado, que não consegue fazer nada por isso, visto que há o coronavírus, uma pandemia, potencializada pela mídia. Com este discurso, Bolsonaro quer se eximir das responsabilidades inerentes à condição de presidente, ou seja, de governar e, muitas vezes, de agir, politicamente, no campo de temas impopulares que geram perda de capital político. No caso atinente à narrativa de que houve fraude nos EUA, Bolsonaro, novamente, volta à carga, afirmando que, em 2018, na eleição que foi vitorioso, houve, também, fraude. Segundo provas que afirma possuir, mas que nunca apresentou, ele teria ganhado já no primeiro turno. O Tribunal Superior Eleitoral já, em várias ocasiões, rechaçou essa afirmação bolsonarista, bem como atestou a segurança das urnas eletrônicas. Vale ressaltar que, na Nova República, nas eleições presidenciais, apenas Fernando Henrique Cardoso ganhou no primeiro turno e foi reeleito no primeiro turno; Collor, Lula, Dilma e o próprio Bolsonaro tiveram as vitórias confirmadas em segundo turno. Em síntese, além do alerta em relação a situação dos EUA e o ataque aos alicerces da democracia, há que se manter atenção em relação a política discursiva que, no bojo do Bolsonarismo, indica o mesmo caminho dos EUA. Trump foi categórico, ao longo do tempo, em afirmar que não reconheceria a vitória de seu adversário, fosse quem fosse. O trumpismo deixou claro que contestaria, juridicamente, a legitimidade das eleições; contestou, ainda, com invasões, violência e até tiros, a cerimônia de reconhecimento da vitória de Biden. Segundo Barack Obama, as cenas de invasão do Capitólio, marcarão a nação pela desonra e vergonha, afirmou que tal postura de Trump não o surpreendeu em nada. 

Importante, analiticamente, compreender o desenrolar desta história, aqui e alhures. Veremos se a instituições brasileiras terão a força suficiente para enfrentar um problema que está anunciado e que, provavelmente, se dará, em 2022, na hipótese de uma derrota de Bolsonaro. Veremos.

Por Rodrigo Augusto Prando
 Professor e Pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie, do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas. Graduado, Bacharel e Licenciado, em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp

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